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21/05/2012

21 MAI 2012 : RETOUR SUR LE 1er MAI

 

 

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Manuel CARVALHO da SILVA

 

Presidente do Conselho Pontifício

para a Família antecipa

Encontro Mundial

 

Agência ECCLESIA (AE) — Com a crise laboral que se vive ainda faz sentido comemorar o dia do trabalhador?

 

Manuel Carvalho da Silva (MCS) — Sempre fez sentido e, agora, ainda faz mais. O trabalho, enquanto atividade humana, é o elemento fundamental de integração e inclusão na sociedade, mas é também pelo trabalho que a afirmação do ser humano no seu pleno se obtém. A articulação entre o trabalho como direito universal e os valores da dignidade e responsabilidade humana numa sociedade que se quer cada vez mais universalista e respeitadora da multilateralidade e multiculturalidade entre os povos tem o trabalho como referência central.

 

O 1º de maio tem uma história e foi muito importante que tenha sido instituído como dia de referência do contributo coletivo e da luta coletiva dos trabalhadores para a caminhada da conquista de um conjunto enorme de direitos sociais.

 

AE — Direitos que estão a desaparecer?

 

MCS — Exato. Se olharmos para os bloqueios que a sociedade se encontra — aquilo a que comummente se chama crise, que não está despida de conteúdo de político, mas é um conceito, profundamente, ideológico — e tentar romper esses bloqueios e encontrar caminhos de saída, o trabalho está no centro. O trabalho está no centro para o combate à pobreza — que é primordial -, no combate às desigualdades e em tudo o que se possa discutir sobre o Estado social e no garante dos direitos sociais fundamentais.

 

AE — Em 2012, o trabalho ainda tem essa centralidade?

 

MCS — Está mais do que esteve. Sempre que há uma situação de crise, a emergência do lugar e do valor do trabalho como questão central é primordial para se partir na busca de soluções.

 

AE — A gravidez e o parto dessas soluções estão difíceis… A crise já vigora há alguns anos.

 

MCS — Corremos o risco, em relação ao espaço em que vivemos (Portugal e União Europeia), de a situação se continuar a agravar. O problema não está apenas no aparecimento de soluções, mas no agravamento diário das condições.

 

AE — Com este cenário, faria mais sentido celebrar o dia do desempregado e não o dia do trabalhador?

 

MCS — É preciso celebrar o dia do trabalhador para relevar a violência do desemprego.

 

AE — Nunca se comemorou o 1º de maio com uma taxa de desemprego tão alta?

 

MCS — Em democracia não porque, em ditadura, já. Se há coisa que marcou a sociedade portuguesa durante o século XX é que existia muita ocupação, mas a sua retribuição dava para a subsistência e, muitas vezes, sem dignidade. Não havia o conceito de emprego que temos hoje. O salário foi ganhando conteúdo. A retribuição do trabalho não foi sempre feita pelo conceito de salário que, hoje, temos.

 

A Europa que hoje existe — apesar dos bloqueios grandes — é o espaço geográfico onde os direitos do trabalho ainda estão — em termos comparados — com avanço em relação a outras zonas do mundo e onde há uma relação mais forte entre os direitos do trabalho e os direitos sociais e políticos. No entanto, não teríamos este avanço se não houvesse a luta dos trabalhadores organizada.

 

AE — Foi nos seus tempos de jovem, quando militante da Juventude Operária Católica (JOC), que ganhou essa consciência política, laboral e cívica?

 

MCS - Os primeiros sinais são daí… Recentemente, encontrei um padre mais velho do que eu, em Braga, que já não via há muitos anos, e estivemos a trocar impressões sobre esses tempos da JOC. Os primeiros despertares da observação do trabalho e do seu valor — no ponto de vista do enquadramento conceptual e a sua ligação à dignidade humana — vêm dessa fase.

 

Não posso esquecer também a observação direta. Como era filho de pequenos agricultores, existia a perceção de quem estava sujeito à exploração ou não. Isso foi uma das coisas que os meus pais me incutiram.

 

AE — Outros tempos…

 

MCS - Quando recordo aqueles tempos, verifico que, atualmente e apesar dos bloqueios, fizemos um progresso extraordinário. Neste tempo, a capacidade de produção e distribuição de riqueza é incomparavelmente melhor do que era há umas décadas atrás. Nada justifica que se esteja - em nome da falta de dinheiro e da falta de riqueza - a eliminar direitos das pessoas e a provocar empobrecimento e sofrimento. Há produção de riqueza e dinheiro a circular…

 

AE — Mas essa riqueza está, apenas, na posse de alguns…

 

MCS — Esse é que é o problema, mas é possível continuar o progresso, embora tenhamos de alterar muita coisa no estilo de vida das pessoas. Quando olhamos para a crise, esta não é meramente financeira. Ela é económica porque a secundarização do trabalho na economia levou à desresponsabilização das pessoas a partir do trabalho. A crise é profundamente social… Não se justifica esta pobreza e desigualdades. A crise é política porque temos uma governação não credenciada, visto que os programas que nos impõem não foram sufragados. A crise é de relacionamento das instituições, de valores, de ruturas e disfunções entre gerações, energética e ambiental.

 

AE — Então é fundamental reagir?

 

MCS — Reagir, protestar e dizer: Se há riqueza reparta-se melhor. Hoje, há condições de produzir alimentação no mundo que satisfaça todos os seres humanos.

 

AE — Mas a fome existe…

 

MCS — Não faz sentido haver fome, tal como não faz sentido a irracionalidade do uso de uma série de matérias-primas.

 

AE — Perante um cenário tão negro é urgente alterar o estilo de vida?

 

MCS — Plenamente de acordo. A Europa não terá nas próximas décadas o acesso que teve às matérias-primas nas décadas do seu grande impulso de desenvolvimento. Teremos de valorizar o trabalho social muito mais do que foi valorizado. Isto, se queremos caminhar positivamente. Vamos ter de encarar a gestão da economia distanciando-nos da ideia de todos competirem contra todos numa espiral de loucura. Pode não haver crescimento económico e haver condições de viver melhor.

 

AE — Como se consegue dar a esse ideário uma componente prática?

 

MCS — Não é possível encarar os problemas nacionais sem olhar, simultaneamente, para os problemas europeus e globais. O que não se pode é ficar à espera deles e, muito menos, esperar que os outros nos façam a governação que nos interessa. Cada um de nós tem de tratar do seu projeto. Há dimensões da crise que obrigam a novas formas de agir. Os caminhos alternativos não são complexos. São difíceis de construir, mas são feitos de conteúdos muito simples. As respostas à atual situação passam mesmo por opções muito simples como o dar prioridade ao combate à pobreza…

 

AE — Todos os programas eleitorais colocam essa prioridade em destaque.

 

MCS — Mas depois fazem o contrário. É fundamental ter presente que cada medida que empobrece a sociedade amputa liberdade às pessoas. A pobreza elimina liberdade e destrói a democracia.

 

É necessário identificar a verdade para sabermos agir e para onde caminhar. Esta inevitabilidade conduz aos medos e à resignação. As pessoas necessitam consciencializarem-se dos seus medos e da limitação que os medos lhe provocam. Depois, têm de romper essa limitação.

 

Não se sai da crise através de uma varinha de condão. É preciso criar nas pessoas uma carga forte de responsabilização. Os processos que vivemos nas últimas décadas desresponsabilizaram. Ainda neste contexto, é urgente uma governação com ética e com responsabilização. Não se sai dos buracos atuais, enquanto o povo não reconhecer numa governação (não é apenas o governo) que tenha ética, rigor e transparência.

 

AE — Como contestar o atual modelo de governação?

 

MCS — Em primeiro lugar, a cidadania. Estamos muito distanciados… Precisamos de seres humanos interventivos porque discutir e pensar dá imenso trabalho. Estamos num tempo de apelo forte ao pensamento e à ação. É mesmo preciso pensar…

 

AE — Mas primeiro é fundamental cumprir o memorando da Troika?

 

MCS — Na governação atual apresentam-nos o memorando ou a governação da Troika como uma inevitabilidade que afinal não é tão inevitável quanto isso. Veja-se o que o FMI tem dito nas últimas semanas: «Estes programas de austeridade não têm saída e que a austeridade generalizada que eles andaram a vender como caminho não é a saída porque são necessários programas de crescimento».

 

Temos falta de uma estrutura financeira que se volte para o apoio à economia. A banca que temos, neste momento não dá atenção nenhuma ao setor produtivo. Para se sair da crise e resolver o problema do emprego é fundamental apoiar e dinamizar as pequenas empresas. As multinacionais e os grandes grupos que dominam o mundo não estão voltadas para responder ao problema real do desemprego e da criação de atividades económicas úteis.

 

Não se pode pegar no memorando da Troika e dizer que isto é de interesse nacional porque é uma falácia total e uma mentira do tamanho do país.

 

AE — Quem está a falar é o académico que fez uma tese de doutoramento sobre «Trabalho e Sindicalismo em tempo de globalização» ou o sindicalista Manuel Carvalho da Silva?

 

MCS — É um cidadão que aprendeu na vida, no sindicalismo e na academia.

 

AE — As marcas católicas dos seus tempos juvenis ainda se mantêm?

 

MCS — Essas mantêm-se. A nossa formação de infância e juventude tende com o caminhar da vida a reafirmar-se com alguma força.

 

AE — Há meia dúzia de anos, disse que era católico, mas não praticante. Já passou para a classe dos praticantes?

 

MCS — (Risos)… Está a confessar-me… Eu tenho as minhas práticas. Gestos e atitudes que todos os dias tomo e que estão relacionadas com a minha formação católica, mas que não se metem nos parâmetros formais com que, normalmente, é feita a leitura do que é ser praticante. O praticante é mesmo a vida vivida. Tenho estado em várias iniciativas promovidas por organismos da Igreja Católica.

 

AE — O contacto com o mundo do trabalho deu-lhe uma visão abrangente a realidade portuguesa?

 

MCS — Sou um privilegiado. Tive a sorte de fazer um percurso de vida no mundo do trabalho. Partilhando e vivendo problemas que me permitem ter grelhas de leitura.

 

AE — Como está o projeto do observatório sobre a crise e alternativas?

 

MCS — É um caminho que se está a iniciar e um projeto criado pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, mas com a colaboração da OIT (Organização Internacional do Trabalho). Através deste observatório tentaremos dar contributos ao nível da gestação de alternativas. Queremos produzir relatórios e observações regulares.

 

Source : Agencia Ecclesia

 

 

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10:22 Publié dans Société | Commentaires (0)

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